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O Erro de Virgílio

 

Sentei-me à secretária e abri as folhas. As palavras do poema encravavam-se entre os apontamentos manuscritos das aulas anteriores. Olhei os versos novos a traduzir. Bucólica Quarta, Virgílio: a falsa profecia cristã, em que se previu o Menino (“… modo nascenti puero, quo ferrea primum/desinet ac toto surget gens aurea mundo“: “…ao menino que vai nascer em breve, com cujo nascimento/acabará a geração do Ferro e surgirá em todo o mundo a do Ouro”) – que não era senão, coisa banal!, o filho do mecenas de Virgílio, Asínio Polião. Fiz o sésamo do dicionário (mesmo sem ser ali babá) e inicei a versão. O homero romano, fervoroso, enunciava como uma lista de supermercado as coisas grandes da idade do ouro, cuja vinda acompanharia o nascimento da criança mágica. E tudo, seria, na sua descrição exultante, uma ilha dos amores (menos erótica, porém – isso, foi invenção sábia e boa de camões). Foi então que li os versos errados (cujo início, de resto, lembra aquela linha má de Cícero, quando este pensou infamemente que era poeta): “cedet et ipse mari uector, nec nautica pinus/mutabit merces: omnis feret omnia tellus” – “O próprio armador renunciará ao mar, nem o pinheiro naval (=navio)/há-de transportar as mercadorias: toda a terra há-de produzir tudo” (na tradução bela e latina do Pai-Santo Agostinho da Silva: “Ninguém mais haverá de marinheiro/e nave alguma transportará cargas/pois toda a terra tudo nos dará”). Virgílio, Virgílio!, que loucura foi essa que te tomou? Atou-te a trapaceira Ate (Aτή), (na trapaça só se compara a Eros: os dois – poucos o sabem – são gémeos falsos), a deusa do Erro, a de delicados pés que caminha “sobre as cabeças dos homens” (Il. XIX, 93, trad.: F. Lourenço). Virgílio, que damásio para o teu erro? Reli os versos, verifiquei a tradução e confirmei a insensatez: queria Virgílio um mundo sem mar!. Ponderei nas razões disso ser. Como um truman show, o pai dele devia ter-se afogado sob o olhar impotente do filho: doravante, não mais Virgílio foi capaz de construir castelos de areia, pelo receio das marés. Não raramente lembrava aos seus amigos, quando, em conversas de café, gozavam divertidos com a sua fobia, que a atlântida tinha morrido submersa (ele não sabia que, de todos eles, só mesmo asínio polião acreditava em platão). Depois o magister deu-lhe a ler hesíodo – e ele convenceu-se definitivamente da maldade do mar. Gastava as tardes livres no atelier a desenhar mapas do mundo e a requintar de monstros os mares vários (os cartógrafos medievais, de facto, pouco outro fizeram senão copiar meticulosamente as quimeras aquáticas do amedrontado Virgílio). Um dia, porém, Virgílio apaixonou-se: e a rapariga eleita nascera, como uma afrodite, do mar. Morava numa pequena cidade costeira, onde guardava uma uilla. Virgílio amou-a: mas ela amava o mar. Quando já sabiam contar dois meses de namoro, convidou-o para ir a casa dos pais dela, almoçar e conhecê-los. Ele assentiu. Quando a comida já estava encerrada, ela resgatou-o e levou-o para fora de casa com o egoísmo de o ter só para ela. Calado e amado, ele seguia-a. Foram ter à praia. Num gesto só, Virgílio apertou-lhe a mãe com força, como dois namorados. Ela, porém, não podia compreender que Virgílio procurava somente segurança, como uma criança à mãe. E, vendo naquilo um anel de noivado, Júlia, filha de Júlio (assim se chamava ela), encardiu os lábios dele com um primeiro beijo. Como uma abelha soltando-se da flor, desapertou os seus lábios dos dele e tingiu-os num sorriso. Nos olhos, apascentava o amor. Como quem se livra de algo incómodo, um peso aborrecido, desprendeu o vestido e deixou o pano mostrá-la. Abaixou-se e libertou as sandálias. Virgílio contemplava-a e via-lhe o corpo, delgado, vincado, em graça. Ela sussurrou-lhe ao ouvido, oferecendo-se-lhe inteira. E então correu para o mar, os pés descalços e pequenos sobre a areia que a corrida levantava como um aplauso, o corpo nu contra as ondas – mergulhou. Virgílio apoquentou-se, primeiro porque ela não aparecia; depois que ela emergiu, porque lhe pedia o mesmo compromisso e dar razão a Tales, fazendo toda a vida nascer na água. Virgílio sentia o desejo – e sentia o medo. E, como sempre que esta balança se organiza para os cobardes, triunfou o último. Sem voltar costas, Virgílio começou a recuar, até correr depois como um judas a quem os sacerdotes não aceitam a devolução das trinta moedas. No mar, a filha de Julho fez-se inverno – e chorou, incompreendendo. Apolo, deus mau, vendo-a então nua, e desprotegida de Virgílio, desceu dos ceús, consumido pela pulsão baixa, o libido. Deus parvo, atirou-se à água e nadou furiosamente para ela, para a tomar. Nos olhos dele ela reconheceu o seu perigo. Aflita, nadou mais e mais para dentro de água, mas o deus, como um cão perseguindo uma rapariga pequena, aproximava-se também mais e mais dela. Quando, enfim, apolo, o deus mínimo, estava prestes a agarrá-la, Zeus, compadecido, com o consentimento de ovídio, deixou crescer à rapariga uma cauda de peixe, para que fosse mais célere que febo bárbaro, e se mantivesse pura: assim nasceu a primeira sereia (a mesma por quem, muitos séculos depois, hans christian andersen se apaixonou). Virgílio jamais a recuperou, e o mar ficou-lhe a dever o pai e a amante. Furioso, o poeta mandou erguer uma torre altíssima, com o limite, contudo, de do seu topo não se conseguir ver o mar. Aí se fechou, imerso no elemento aéreo, longe do seu inimigo (porém, por respeito para com o deus, todos os dias, para não julgar o nume que ele o ofendia, oferecia hecatombes a posídon). De acordo com um testemunho oral de um escravo de Virgílio, a torre era também toda ela desprovida de janelas, para que jamais sucedesse o poeta contemplar sequer a chuva, que engorda os rios e engravida o mar. Assim, na ira, morava Virgílio – e, movido por esse ódio, escreveu as severas palavras da Bucólica, proclamando o mundo do mar dispensável, esquecido de que, no início, o espírito de Deus se movia sobre as águas. Por fim, Virgílio morreu, e foi para o Hades, onde o encontrou Dante. Ai, Virgílio, Virgílio! Viveste já tantos séculos entre o fogo: deixa-me mostrar-te a água eterna! Um dos grandes mistérios da humanidade (como stonehenge) é saber como Beethoven, o Grande, compôs a Nona Sinfonia, sem jamais, na sua vida, ter algum dia contemplado o mar. Frequentemente acho-me na Varanda a meditar sobre esse puzzle. Conheces, Virgílio, aquele quadro do David Friedrich, Monge à Beira-Mar? Creio ser das coisas mais belas que o romantismo pintou. O mar, Virgílio, é a forma material da metafísica; ali, derrama-se a transcendência, liquefeita. “Toda a terra tudo nos dará“: quem te plantou esse engano: Nietzsche? O próprio engano, nota, é uma coisa da terra, que é opaca e enlameada; não do mar, transparente e limpo, onde não há hipocrisia. Sabes, Virgílio, em última análise (deixa-me confessar-te este segredo), se a Odisseia triunfou sobre a Ilíada, foi pelo seu cheiro a sal (e o sal, diz-se, é um condimento indispensável para qualquer receita). Virgílio, tu nunca poderias ter descoberto a índia e inventado o preste joão. Vou-te narrar uma estória e, como esopo, dela tirarás a moral: Júlio Verne quis, quando jovem, partir para o porto e embarcar, para conhecer o mundo – o pai, porém, apanhou-o e proibiu-lhe expressamente algum dia fazer-se marinheiro. Desgostoso disso, estudou afincadamente, lendo as revistas da netional geographic, as curvas do mundo (o mundo, enganam-se os que dizem ele ter cantos: é feito, sem dúvida, de curvas – parecem-se esquecer da verdade fundamental: o mundo é uma mulher). Foi assim que viajou sem barcos e escreveu tais livros que os homens todos quiseram acreditar que ele necessariamente tinha visitado quanto descrevia – mesmo se esse crença deles era uma mentira. Mas, Virgílio!, tu nem desejo tens de conhecer a solidão do mar! Já Ismael, o escriba da aventura da baleia branca, dizia que, sempre que tinha vontade de se matar, em vez de o fazer, embarcava num navio para afastar esse vento nefasto. Olha, Virgílio, o exemplo do marinheiro de Malta: ele é livre e belo – de facto, o mar é possivelmente, como ele nos ensina, o último reduto para os românticos, a planície ainda não conspurcada pelo homem e pelas máquinas, o território, arejado e anarquista, sem estado. (Corto, Corto!: quando poderei ser tu? empresta-me ser-te pelo menos umas décadas, só até eu morrer de morte). Os sonhos, formam-se no mar: lê o quinto volume do Sandman. Não é a despropósito (na língua, tudo é ponderado) que mar parece a etimologia de amar. Tétis, senhora dás águas, não esqueças!, deus à luz aquiles: grandes e poderosas coisas obra o mar! A minha primeira lição de grego, foi, crê-me!, à beira-mar. Virgílio, Virgílio: vês agora, manifesto, o teu erro?

 

Escuta!, ouves?, o grito verdadeiro: Θάλασσα, Θάλασσα!

 

Foi então que ocorreu outra coisa a Helena, filha de Zeus.

No vinho de que bebiam pôs uma droga que causava

A anulação da dor e da ira e o olvido de todos os males.

Quem quer que ingerisse esta droga misturada na taça,

No decurso desse dia, lágrima alguma não verteria:

Nem que mortos jazessem à sua frente a mãe e o pai;

Nem que na sua presença o irmão ou o filho amado

Perante seus próprios olhos fossem chacinados pelo bronze.

Tais drogas para a mente tinha a filha de Zeus…

Odisseia, IV, 219-227 (trad. Frederico Lourenço, Cotovia, 2003)

 

Comecei enfim na semana passada a ler a bendita bem-escrita Odisseia. Hoje, retido por doença em casa como uma suu kyi por uma junta de assassinos, aproveitei o tempo breve para avançar alguns cantos, encerrando a primeira parte do poema, conhecida pelos classicistas como telemaquia, por se centrar na busca de telémaco por seu pai, ulisses. Relembro mal a Íliada. Da Odisseia, porém, desprende-se uma ligeireza e agradabilidade, um sentimento encantatório e simples que consola o leitor como uma bebida de helena. Estranho que a droga da princesa de tróia não tenha ficado proverbial, e dessa realidade não tenha o tempo forjado (cronos é um hefesto) uma expressão como “calcanhar de aquiles” ou “canto das sereias“. Não sabia que a filha de zeus se disfarçava de circe e só na fonte primeira, o pai homero, pude beber essa poção. Taça deliciosa! Não cabe em nós receá-la. Ela oferece o mesmo poder que o sonho: sem eliminar a memória, suspende-a. Espantalho efémero da tristeza.

Helena encantou-me. Desconhecia que a “tripla cadela” (como lhe chamou penso que Hesíodo) pudesse ser tão rica de mistérios e simbolismos. Ocorre-me escrever um longo texto sobre ela: subitamente, também eu caio, venerando, perante a mulher que nasceu do ovo. Não nego que a figura de Helena nunca foi das que mais me atraiu: tendia rapidamente a esquecer, ao ler as aventuras dos heróis de tróia, que a guerra era toda por aquela mulher de bela cintura. Hoje, confesso-me do meu pecado, e agradeço a afrodite não me ter punido pelo meu desrespeito perante a beleza. Ao ler as suas palavras naquele canto quarto, sinto a nobreza e a elevação – na forma como se descreve, a tragédia de ter sido um instrumento. Dalguma forma, o episódio doze da primeira temporada de Xena, “Beware Of Greeks Bearing Gifts“, já me tinha aberto para as possibilidades alternativas de leitura trágica da figura de Helena. Erro meu, presunção minha!, a de acreditar que haja uma figura só, na hélade, que não seja intrinsicamente trágica! Se até na arcádia, ego sum… Percebo enfim tudo, atravessado por uma seta afiada de lucidez: o que sempre me levou a menorizar Helena, o ela ser sempre apenas um pretexto, um instrumento, é precisamente a sua grande tragédia, porquanto ela é uma pessoa. Lembro a Helena de fausto, de goethe: hei-de chegar a ela, no meu estudo (que pode demorar o mesmo tempo a emergir que eu demorei a perceber a verdade de Helena). Helena é desejada, mas nunca amada. O que durante tanto tempo eu julguei um defeito da sua figura, o ela só ser conhecida pela sua beleza, vejo agora ser o seu grande drama, mulher reduzida a uma só dimensão, expurgada da sua complexidade humana, resumida a uma face única (ai!, e o ser humano é um jano com tanto mais do que dois lados!). Aquiles é corajoso, intempestivo, irritável, desmedido, mas também bom orador; Heitor é bom pai, esposo, filho, cidadão, guerreiro: mas, ai!, Helena é só bela! – ou isso os homens pensam dela apenas! Bastou-me descobrir uma outra faceta dela, apenas, para reequacioná-la completamente. Doravante, Helena, não te tratarei mais com desrespeito. Perdoa as minhas falhas passadas e celebremos, celebremos a nossa união com um brinde da tua droga.

Imagem: Scarlett Johansson, tradução de Helena hoje.

Carta A Meu Pai

Pai, se eu tivesse sido pequeno, ter-me-ias escrito também cartas do pólo norte e eu talvez tivesse acreditado no pai natal enquanto não descobri na despensa a prenda que recebi quinze dias depois. Hoje, que eu sou criança (finalmente, depois de ter sido velho), é que leio as cartas antes de abrir os presentes todos os natais: são sempre as mesmas (não mandas mais) – que importa?, são suficientes. Mas Pai, não chores santa mónica pelo meu ateísmo em nicolau. Não imagino mesmo como tu sejas a chorar: recordo-te sempre (nas fotografias antigas que a mãe guardou tuas) a sorrires sem estrépito e contente de um segredo, a boca desdobrando-se, como se fosse próprio da anatomia (um sinal de nascença, por exemplo), no cachimbo. Não lamentes, Pai, a minha infância ser uma construção minha enquanto jovem, e eu, como atena, ter crescido pronto-inteiro logo quando hefesto moderno quebrou minha mãe. Aprendi assim, Pai, coisas que os outros se esqueceram de sonhar (Hamlet). Quando tu me contavas, para me embalar (e encarnavas sandman), as estórias de aragorn e éowyn, eu saboreava a melodia de dizer imladris e galadriel para me adormecer como quem conta cordeiros. Tu não te apercebias: eu só o fazia quando tu já tinhas deixado o quarto e abandonado a luz. Dos teus contos, estudei o apêndice E cuidadoso e em segredo, aprendendo a fala primeira do mundo (porquanto arda veio antes de nós). Era aquela a língua pura e pela insistência em me rodear da beleza dos teus mitos permeou-me a beleza dos teus idiomas. Subitamente, as palavras eram como as mulheres: existia-as belas, indiferentes e feias. Redigi uma furiosa catilinária contra os doutores da linguística, e proclamei-lhes o seu erro fundamental: a língua era, mais que um meio de comunicação, um exercício de arte. (Que, de resto, a língua não nasceu para comunicar, mas sim para cortejar as mulheres, já mo tinha ensinado o professor keating na escola). Antes, Pai, eu usava as palavras como quem se serve de uma mulher disponível. Foste tu que me mostraste a falha fundamental disso e me ensinaste a comer as palavras como pêssegos e a deixar os beiços húmidos delas. E em cada fruto de palavra descobri a semente da verdade. Reparei como Deus tinha moldado o mundo pelo império do verbo e sentia cócegas quando me contavas, Pai, os amores das palavras como os amores dos deuses e a sua progenitura. Quis praticar a quiromancia delas e fui penteando o meu quarto com quadros de palavras. As pessoas, quando entravam, interrogavam-me pela razão daquilo e não lhe achavam arte alguma: pobres!, que não sabem olhar por baixo da saia das palavras virgens! E, Pai, quando tu viste quanto eu amava as palavras, criaste mil e uma para mim, uma por cada noite – e chamaste ao conjunto quenya. Resolvi imitar antes do tempo, aulë impaciente, o teu ofício, e construí para mim uma língua e um mundo sobre os teus ensinamentos: para os deuses reservei o celeste c e e, aos ciclopes deixei o f e o v, para as sereias guardei o l, o i e o u, embrulhados de nasais. Pai, nisso fui como o filho pródigo, que te pediu demaisiado cedo a herança sem a saber gerir! Contudo, não me arrependo: tu ficaste feliz, como um pai que aprecia naturalmente os incipientes esforços de um filho para andar. Quis ser arqueólogo da língua e falar indo-europeu para ser entendido por todos. Pai, foste tu que me tornaste filólogo. Um ano depois do gaarder me ter ensinado a filosofar, tu fizeste-me soletrar a genealogia das palavras. Contigo, recuperei algo grego dentre os destroços do tempo: o sentido de beleza, a beleza omnipenetrante e omnipresente. Hoje, que soluço grego, reconheço a sua grandeza como uma mulher nua (pensar no latim, tão áspero, como uma velha). O próprio verbo há-de ser belo, há-de ser límpido, há-de ser puro. Dele transborda a verdade e só a bebem os galahads. Foste tu, Pai, que me ensinaste a apreciar tudo isto e a retirar daqui um prazer pastorício. Hoje (penso que ficarias feliz de o saber), estou inscrito num curso para aprender de vez o fabrico das palavras: e foste tu, Pai, que me levaste até aqui, com o teu sorriso fumado. Obrigado.

In token of my admiration for his genius,

the following philological series is inscribed to

A primeira vez que me apresentaram a Beowulf foi numa convenção de heróis. Calhou estarmos alojados no mesmo hotel e um dia encontrei-o no lobby, lendo o New Yorker. Perguntei ao rapaz da recepção, empregado de verão para ganhar algum dinheiro fácil, quem era o indivíduo e ele, verificando a identidade no livro de registos, confirmou-me o suspeito. Aproximei-me e, como quem teme interromper (mesmo que saiba – e especialmente se sabe – que está no processo disso), perguntei, apenas pela delicadeza retórica de uma question tag: «Beowulf?». O herói poisou a revista e levantou-se entre um oh de espanto que disfarçava o desconhecimento de mim com a interjeição de um assomo de lembrança. Era um sujeito substancialmente alto, mergulhado num fato polido de ocasião (camisa branca nas consequentes molduras pretas das calças e do casaco), mascarado de concodar com a art nouveau d’ouro e vermelha do hotel. No rosto tinha a cara de quem leva o destino às cavalitas. Magro, tudo nele era longo e estreito: olhos, lábios, nariz, dedos; parecia uma grande cana atlética. Os cabelos tinha-os puxados para trás com ímpeto e gel, castanhos pela altura dos ombros. Sorriu-me ao estender-me a mão, procurando balbuciar fingidamente uma palavra na expectativa de que eu o interrompesse na revelação do meu nome. Assumi a minha identidade e ele convidou-me a sentar no canapé ao lado dele. Ofereceu-me um cigarro que eu rejeitei e acendeu o seu. Quis saber coisas sobre mim, numa simpatia sincera. Perguntei-lhe em que se tinha reformado, e ele respondeu-me que trabalhava agora como ourives (rimo-nos ambos da pun): “From ring-giver to ring-maker and i’m not yet a sauron!”. A deixa foi o bastante para dali inquirir o passado dele. Contou-me a vitória sobre Grendel e a mãe, mas omitiu a luta final com o dragão: compreendi que não quisesse falar das sua morte e respeitei-o. Ariadne apareceu então por detrás, inclinando-se sobre a cadeira e sussurando-me ao ouvido a ordem de ir: os trabalhos da manhã iam começar. Uma trança encaracolada dela caiu-me a fazer cócegas no pescoço e eu concordei contudo o que ela dizia só por causa disso. Levantei-me, despedi-me de Beowulf e prometemos rever-nos. Ariadne tinha apanhado o cabelo em forma de flor aberta no topo da cabeça, com algumas madeixas a escorrerem até baixo. Cobrira os olhos de sombra preta egípcia e vinha vestida com uma camisola de lã de cores hippies e uma saia de linho violeta a encaixar numas sandálias. Deu-me um fio para me orientar até à sala e um beijo para me desorientar a alma. Ainda hoje, quando vou a Creta, mesmo se nunca lá fui, durmo no palácio dela. (observação: o congresso de heróis chamava-se Livro Ilustrado de Mitos, organizado por Neil Philip).

Não tive mais notícias de Beowulf até há coisa da páscoa passada ter tropeçado, em plena descoberta de Borges, no ensaio As Kenningar. Foi o mote para eu ir aprenler Beowulf. Arranjei o livro no instituto inglês, na premiada tradução de Seamus Heaney, numa edição da Norton Critical. Aos meus amigos, quando inquiriam o que estava a ler, respondia-lhes que era a Ilíada dos ingleses. Beowulf trata-se de um longo poema heróico-elegíaco, com data algures entre o século VIII e o X e 3183 versos, escrito em inglês arcaico, também chamado de anglo-saxão. Ao contrário do português arcaico, que é razoavelmente compreensível para o falante moderno (é possível estudá-lo no início do secundário), o inglês arcaico é ininteligível para a rainha de inglaterra. Por isso mesmo os ingleses são obrigados a ler o seu épico nacional em traduções, o que porém não nos deve espantar num país em que se conduz pela esquerda.

Lembro-me da minha surpresa quando abri a Odisseia e não rimava – e senti-me defraudado por um homero que tinha concebido à imagem de camões. Nessa altura, as canções de embalar ainda tinham de rimar para eu adormecer. Beowulf, como parece ser teimosia dos grandes épicos (Milton dizia mesmo, no prefácio do seu, que a rima era uma “invention of a barbarous age, to set off wretched matter and lame meeter”), também não faz estrofes (como Borges bem identifica no seu referido ensaio, a estrofe é uma criação que resulta directamente da rima), mas, em contrapartida, alitera. O verso é composto por duas partes, chamadas hemistíquios: cada uma destas pode, por sua vez, ser dividida em outras duas. Ficamos assim com quatro unidades métricas, em que a primeira obrigatoriamente alitera com a terceira, podendo a segunda juntar-se à dança. Foi assim que eu aprendi a adormecer, onde antes tinha cantigas, ao som de trava-línguas. Traduzir mantendo este padrão é, como facilmente se entende, uma tarefa titânica, mas Heaney carrega atlas sobre si um prémio nobel da literatura. Nem sempre conseguindo necessariamente manter a rígida regra, o poeta, na sua tradução, garante que pelo menos duas palavras aliteram, contudo. O seguinte verso obedece à ordem básica da lírica germânica: “[1] by his powerful [2] thanes. [3] A party [4] remained” (v. 400). Por meio dos números procurámos indicar as já referidas quatro partes em que se decompõe todo o verso anglo-saxão. A negrito mostramos o fonema que alitera: /p/. Esta era a “rima” básica (entre o [1] e o [3]) que se exigia ao bardo inglês, chamado de scop. Adicionalmente, como dissémos, o [2] podia juntar-se ao obrigatório namoro do [1] e do [3]. Este ménage à trois desbrochava em versos como: “[1]So every [2] elder and [3] experienced [4] councilman” (v. 415). Heaney, porém, na sua tradução, chega a conseguir orquestrar as quatro partes da empresa em coros como: “[1]but shields must [2] stay here and [3] spears be [4] stacked” (v. 397). Nesta exótica substituição nórdica do artifício da rima há algo de infantilmente cativante para quem brincou sempre no pátio defronte da casa greco-romana. E para o poeta dessa educação, esta é a revolta querida e necessária, o exercício dos caminhos obscuros, o desafio insano: virá talvez o dia em que escrevamos todos como se profetizássemos lengalengas.

Os poetas anglo-saxões, longe de Homero, compuseram-se a si mesmos e inventaram os recursos que o papá grego que não conheciam não lhes pode por isso ensinar. E entre eles desenvolveram uma linguagem secreta e onde homero escrevia epítetos eles musicaram kenningar. Um kenning é uma perífrase que é uma metáfora. No precipício do fim de Beowulf, escreve Anónimo: “ban-hus”, que Heaney traduz por “bone-house” – com isto querem dizer corpo. Eis, irmãos e irmãs, o kenning. Os kenningar (é o plural) são uma nova linguagem por si próprios, necessária de aprender para restaurar a beleza no mundo. Segundo tem sido sugerido, o próprio nome Beowulf é um destes, sendo um composto de bee-wolf, o lobo das abelhas. Se por lobo entendermos inimigo e nos temperarmos com um pouco de imaginação, percebemos que o inimigo das abelhas é o urso. Não deixa de ser significativo que os dois maiores heróis mitológicos ingleses – Beowulf e Artur – tenham nomes que significam o mesmo animal. Os kenningar são palavras cruzadas da criatividade. Logo no verso décimo do poema, temos “whale-road”, o caminho da baleia, para dizer “mar”. Beowulf não é, contudo, o mais rico dos poemas em kenningar. Outros épicos nórdicos ultrapassam-no, nesse aspecto. Borges, assaz crítico da técnica (soubesse ele os kenningar de ideias que a sua prosa guarda!), afirma: “Reduzir cada metáfora a uma palavra não é resolver incógnitas: é anular completamente o poema”. Contudo, onde o poema nas longas e monótonas descrições das batalhas na Iíada? Veja-se sintomaticamente o seguinte passo do Canto XI: “Oileu saltara do carro para se colocar à sua frente./Mas no momento em que arremetia o rei desferiu-lhe/um golpe na testa com a lança afiada; o elmo pesado de bronze/não reteve a lança, que o atravessou assim como ao osso./Os miolos por dentro ficaram todos borrifados;/e assim subjugou quem contra ele arremetia” (vv. 94-98, tradução de Frederico Lourenço). Confrontados com a mesma necessidade de relatar as gestas bélicas dos seus heróis, os nórdicos, pelo menos, aliviaram ao ouvinte o peso da narração com uma cascata de metáforas em que a lança já não é mais a lança, mas sim um “dragão de cadáveres”; a espada abandona de si o nome espada, e torna-se o “lobo das feridas”; e o guerreiro despossessa-se do nome secular com que o baptizaram e reconverte-se na “árvore da espada”. Claro que, como bem aponta Borges, corre-se o sério risco de cair num gongorismo balofo. Não sucede isso em Beowulf, como já afirmámos, onde, pelo contrário, apenas lamentamos não existirem estes em maior número.

Como um neo a tentar bater num morpheus, ainda não o atingimos: é tempo de o fazermos. Despi as roupas de poeta e deixei para trás a filologia do poema, para ficar com o herói e saber-lhe a estória e os feitos. Hrothgar, rei dos Jutos (actual Dinamarca, cuja península é precisamente designada de Jutlândia), ordenou a construção de um palácio “meant to be the wonder of the world forever” (v. 70). De todos os cantos do reino e do mundo vieram trabalhadores e juntos como um memorial do convento ergueram Heorot, “the hall of halls” (v. 78). O rei e as suas tropas vieram habitar aqueles paços e nas primeiras noites a festa foi grande como uma tróia que deixou falsamente de estar sitiada. Os homens, porém, desconheciam. E uma noite, um monstro humanóide, da prole de Caim, Grendel de nome, insuportando as harpas e os cantos e as luzes e as festas, atacou o novo palácio, matando trinta homens: “greedy and grim, he grabbed thirty men” (v. 122). O rei ordenou que se montasse vigia na noite seguinte e os homens bravos aprontavam-se para matar a besta. Grendel regressou e destruiu os guerreiros, pois nenhuma arma conseguia perfurar a sua pele. E assim, Heorot foi abandonado e Hrothgar, bom rei de sábias vitórias, viu o seu reino encharcado de terror. Grendel todas as noites ia até Heorot, matando ocasionalmente pelo caminho: “There was panic after dark, people endured/raids in the night, riven by the terror” (vv. 192-3). Doze anos se lamentou o rei e nesse tempo os poetas e os marinheiros fabricaram estórias da desgraça da Jutlândia até estas, pelo labirinto das bocas e dos ouvidos, terem chegado até Beowulf, vassalo de Hygelac, rei dos Godos. Com os seus homens, rumou à Dinamarca. Apresentou-se a Hrothgar, expondo-lhe o seu propósito. O pobre e ancião rei acolheu de braços abertos o aventureiro, e como fora o pai de um filho pródigo, mandou matar o animal mais gordo, e em Heorot celebraram. As bebidas aquecem os homens e um guerreiro dentre os Jutos, Unferth, provocou-o, desdenhando do seu valor. Um homem a isso responde de dois modos: por baixo, iniciando uma luta, ou por cima, cobrindo a aposta. Beowulf prometeu então matar Grendel sem recorrer a armas. Quando a noite se aproximou, o rei abandonou com a sua companhia o palácio, desejando boa sorte ao guerreiro godo. “Then out of the night/came the shadow-stalker, stealthy and swift” (vv.702-3). Com as mãos nuas e o coração vestido de coragem, Beowulf fez-se à besta e numa dança nupcial triunfou-lhe arrancando-lhe o braço. Um grito reverberou pelas paredes de Heorot, pintadas do sangue do neto de Caim. Grendel arrastou-se até ao seu covil, sangrando abundantemente para morrer em paz como um ivan ilitch. Quando o sol saiu, Hrothgar se dançasse dançaria: Heorot foi reocupada e grande foi o festim que contou com a presença da rainha, Wealhtheow. Beowulf foi agraciado com grandes prémios e por todos era coroado de herói. Descansados, adormeceram: mas um não voltou a acordar. Pela calada da noite, um monstro ainda mais terrível matou Aeschere, o conselheiro mais próximo do rei. Hrothgar enlutou-se pela morte do amigo e lamentou a vingança da mãe de Grendel e a desgraça incessante que escorregava sobre o seu reino. Beowulf pediu ao rei que o levasse ao pântano onde habitava o novo monstro: aí o mataria. Unferth, antes que o godo mergulhasse nas águas sujas onde se escondia a mãe da sua primeira vítima, deu-lhe a sua espada, que nunca o havia defraudado em batalha, como prova de reconhecimento pelo seu valor, pedindo desculpa pelos seus comentários anteriores. Beowulf agradeceu e mergulhou fundo. A mãe de Grendel atacou-o, mordendo-lhe o peito: salvou-o a sua cota de malha, forte e impenetrável, trabalho impecável de metalurgia. A espada de Unferth mostrava-se impotente contra o monstro, mas Beowulf notou, no fundo do lado, uma espada do tempo dos gigantes, e, na sua força, erguendo-a, cortou a cabeça da besta. O sangue afluiu à superfície e o rei e a sua corte – que a tudo assistiam de cima – julgando ser o sangue de Beowulf, abandonaram o local, entoando lamentos pelo herói e pelo destino cruel que impendia sobre a nação dos Jutos. Choro precipitado, tão precipitado como a primeira festa em Heorot! Beowulf reapareceu ante eles, transportando consigo a cabeça da mãe de Grendel. Ah!, o reino estava salvo e todos foram mais uma vez celebrar para o hall de Hrothgar, Heorot. Os bardos entoavam sempre novas melodias e as canecas enchiam-se permanentemente. Hrothgar presenteou Beowulf com tudo o que este quisesses e as dádivas generosas do distribuidor de anéis – assim designavam o rei – foram embarcadas e, com elas, os homens, que partiram para a sua terra. Muitos anos depois, Beowulf, por um conjunto de circunstâncias bélicas, tornou-se rei dos Godos, que viveram prosperamente enquanto foram por ele governados. No fim do seu reinado, porém, um novo desafio, o último desafio, aguardou-o. Um qualquer ladrão de tesouros roubou, no sono do dragão (draco dormiens nunquam titillandus, já se diz em Hogwarts), parte do seu tesouro. O verme acordou na sua fúria e começou a desvastar as terras envolventes e a aterrorizar os camponeses. Beowulf ergueu-se do trono sem bengala, apesar dos cinquenta anos de domínio justo sobre o povo. Levando consigo uma companhia de homens, foi ter com o dragão à sua cova (a ambiguidade é propositada: a cova é o antro, mas a cova é o túmulo também). Aí enfrentou o cuspidor de chamas, mas, ai!, o velho rei era no coração o mesmo jovem que matou Grendel e a mãe, mas não mais no corpo! Grandes eram as dificuldades de Beowulf, mas ninguém da sua companhia correu a protegê-lo, excepto o jovem Wiglaf (que havia de suceder a Beowulf), que com o seu escudo protegeu o rei. Com a ajuda deste, como um iolau que socorre hércules frente à hidra, Beowulf triunfou – para morrer. Grande foi a dor que se abateve sobre os seus súbditos porque haviam perdido um grande rei e, sem ele, se encontravam de novo à mercê dos povos vizinhos, que – sabiam – não tardariam a atacá-los. Com o cadáver de Beowulf foi enterrado o tesouro do dragão, num monte de terra tão alto que os marinheiros o conseguiam ver de longe: tão longe quanto a fama de Beowulf.

Apesar de o primeiro confronto com Grendel e, depois, com a sua mãe serem os mais conhecidos da lenda de Beowulf, creio ser no confronto final que o poeta atinge a perfeição da sua expressão. A sequência da morte de Beowulf e do seu funeral, com que se conclui o épico, é pungentemente bela – uma vez ao longo de todos os versos, senti verdadeiramente os personagens, a enorme sensação de tragédia e destino que preenchem o poema, o sofrimento: e no lugar de heróis, vi homens. Enquanto lia o episódio, revivia a morte de Artur, que sempre me impressionou como uma peça grega: quando era pequeno, chorava muito em lendo essa passagem. A morte de Beowulf, com as suas diferenças, conseguiu de mim a mesma catarse. Transcrever aqui os muitos versos do passo seria agora despropositado, mas será provável que, numa releitura de Beowulf, poste aqui excertos.

De todas as personagens, marcaram-me especialmente Wiglaf e Modthryth. Onde Beowulf age para provar o seu valor, Wiglaf avança para testemunhar a sua lealdade. Ele é o protótipo do jovem guerreiro, inflamado de orgulho pelo seu rei, desejoso de o defender e lutar ao seu lado, sem que, na sua adoração cega da figura-modelo, meça, muitas vezes, os riscos de se aventurar no zelo da sua devoção. É, contudo, precisamente essa imoderação, essa entrega total e não peneirada pelo raciocínio frio, brotada livre da alma, que o torna o símbolo do guerreiro puro, inocente e bravo – o guerreiro que provará o santo grall. É uma imagem a que o romance de cavalaria recorrerá com frequência e que herdámos dessa idade média. Modthryth, essa, é uma personagem absolutamente secundária, apenas referida de passagem, mas que conquistou o meu fascínio. Transcrevo as linhas que a ela se referem: “Great Queen Modthryth/perpetrated terrible wrongs./If any retainer ever made bold/to look her in the face, if an eye not her lord’s/stared at her directly during daylight,/the outcome was sealed: he was kept bound,/in hand-tightened shackles, racked, tortured/until doom was pronounced – death by sword,/slash of blade, blood-gush, and death-qualms/in an evil display. Even a queen/outstanding in beauty must not overstep like that” (vv.1931-41). Seguem-se ainda alguns versos, em como se diz como a rainha alterou o seu comportamento, depois de casar. O que, porém, me penetrou a imaginação como um aguilhão afiado foi esta imagem de uma rainha de beleza tal que votava à morte quem a olhasse. Modthryth está talhada para ser um símbolo. Num certo sentido, é como uma eurídice invertida: não é o amante (Orfeu) que a condena à morte em olhando para ela, é sim ela que, olhando-a o amante, o sentencia. Ela é a metáfora mais terrível e vampírica da mulher-demónio, da femme fatale, cuja observação da beleza marca a morte do artista. Há algo de ícaro na atitude de quem a olha: um desperezo salutar pela vida em nome de valores maiores. É como uma sémele que soubesse de antemão que ver o amante zeus era matar-se – e insistisse nisso! Olhar Modthryth é a alegoria de não conhecer fronteiras ou limites, da temeridade de saber: é querer as coisas pelo seu valor intrínseco e não as julgar pelo seu preço. Só quem despreza muito a vida a pode ter ao máximo. Modthryth é o brasão, a tatuagem dessa prole de gente.

Outra das riquezas da obra são as sentenças gnómicas em que abunda. Estas são frases que, nalguns aspectos, podemos comparar aos nossos adágios e provérbios: uma colecção do que os velhos pronunciam antes de morrerem, com a súmula da sua experiência terrena – é essa a fonte dos ditos populares. Não pertencendo Beowulf, de modo nenhum, ao género da literatura sapiencial, como o Trabalhos & Dias, de Hesíodo, o seu autor pintou-o com várias linhas que, na sua incisão lacónica, guardam em si verdades extensas. “Often when one man follows his own will/many are hurt” (v. 3077-8) ou “Behaviour that’s admired/is the path to power among people everywhere” (v.24-25) inscrevem-se como mandamentos no coração do homem sábio, que reconhece neles a polidez das coisas certas. Beowulf oferece também uma visão das relações sociais desse tempo de antanho, marcadas por um ciclo de violência ininterrupto. Um homem tem de vingar a morte do seu familiar ou esperar que a família do assassino ofereça ouro para compensar a perda, numa quase antecipação do direito moderno, que prevê precisamente esta figura da indemnização em certos casos de homicídio por negligência. É uma moral guerreira sinceramente estranha ao tempo moderno: as guerras, em Beowulf, são incessantes – os anglo-saxões não deram o passo dos gregos, quando estes saltaram da Ilíada para a Odisseia, do forte Aquiles para o artificioso Ulisses, do vigor do braço para a astúcia da mente.

Durante muito tempo, Beowulf foi analisado precisamente como repositório de dados arqueológicos e históricos apenas. A Tolkien e ao seu seminal ensaio Beowulf: The Monsters and the Critics (1936) se deve a reavaliação de Beowulf como um poema de valor literário intrínseco. O ensaio de Tolkien, que acompanhava a minha edição do épico, é essencial para se entender os méritos de Beowulf. Num estilo claro mas literário, que confirma a genialidade de Tolkien, este argumenta como um cícero apaixonadamente a favor de uma reconsideração literária de Beowulf, delineando as principais linhas de força e centrando a sua análise nos monstros e na sua simbologia enquanto forças do mal absoluto. Não me concentrarei aqui tanto nesta abordagem de Tolkien quanto numa consideração que ele tece no decurso da sua reflexão, que me abriu os olhos até doerem. Tolkien defende que há uma diferença substancial de mundividência entre as mintologias grega e nórdica:

[...] we may with some truth contrast the ‘inhumanness’ of the Greek gods, however antropomorphic, with the ‘humanness’ of the Northern, however titanic. In the southern myths there is also a rumour of wars with giants and great powers not Olympian [...]. But this war is differently conceived. It lies in a chaotic past. The ruling gods are not besieged, not in ever-present peril or under future doom. Their offspring on earth may be heroes or fair women; it may also be the other creatures hostile to men. The gods are not the allies of men in their war against these or other monsters. The interest of the gods is in this or that man as part of their individual schemes, not as part of a great strategy that includes all good men, as the infantry of the battle. In Norse, at any rate, the gods are within Time, doomed with their allies to death. Their battle is with monsters and the outer darkness. They gather heroes for the last defence. [...] When Baldr is slain and goes to Hel he cannot escape thence any more than mortal man. This may make the southern gods more godlike – more lofty, dread, and inscrutable. They are timeless and do not fear death.

Esta passagem é multiplamente virtuosa. Primeiro, no que diz mais respeito a Beowulf, explica a importância dos monstros, que os críticos anteriores sempre haviam desgostado, considerando-os infantis e excessivamente imaginativos, na esperança de encontrarem no Norte as tragédias gregas meramente humanas, despovoadas de fantasia. Os monstros são importantes precisamente porque toda a teologia nórdica assenta na luta contínua contra essas forças do mal, num maniqueísmo talvez simplista, mas verdadeiro para aqueles que nele acreditavam. Os monstros como encarnações do mal que todo o ser humano é forçado a enfrentar na vida ganham ressoância universal. Eles são forças luciferianas: há algo de apocalíptico (o sentido do destino, o cheiro da morte) que reina sobre Beowulf. Segundo, esta observação, profundamente perspicaz, revela uma diferença radical, de consequências que não podemos medir aqui inteiramente, entre duas concepções do mundo. Qual delas a verdadeira desconhecemos. Havemos de retornar a esta oposição identificada por Tolkien, com mais fôlego e mais saber. Por último, isto vem mais uma vez relembrar a importância dos estudos comparados de mitologia e a forma como qualquer especialização, neste campo, é profundamente redutora: não se pode estudar mitologia grega ou nórdica ou japonesa – estuda-se tão somente mitologia, na nudez da expressão (e nem mesmo isso se estuda, ama-se).

Beowulf e Tolkien namoraram algum tempo (antes de ele conhecer Lúthien) e bastardamente descendeu desse amor O Senhor dos Anéis. Estou convencido que o épico anglo-saxão é essencial para a compreensão da génese e de alguns elementos da maior mitologia do século XX, o legendarium tolkeniano, apenas superada na dimensão pela segunda grande mitologia desse século passado: os comics americanos. O próprio nome O Senhor dos Anéis compreende-se melhor tendo Beowulf como fundo. Aí, o rei é designado muitas vezes pelo kenning de ring-giver, que é um epíteto de poder. Entende-se agora a ideia estranha do anel, recuperada desses tempos obscuros de uma inglaterra antiga. Não deixa de ser sintomático que Bilbo, no Hobbit, inicie as suas viagens vencendo um grupo de trolls e as termine derrotando um dragão: também Beowulf triunfa sobre Grendel, que vários estudiosos identificam precisamente como um troll, e mata, no fim da vida, o dragão. Heorot e a corte de Hrothgar recordam de sobremaneira, a meu sentir, Meduseld e Théoden, de Rohan. As canções que Tolkien introduz no meio das celebrações (recordo Bilbo em Rivendell) deixam de aparecer aos olhos do leitor como meras efusões líricas do filólogo do cachimbo e transformam-se em ressonâncias dos jantares de Heorot, permeados de estórias de bardos. Por fim, há todo um tom e tempo, intransponível em palavras, que permite ver duas obras gémeas que nasceram da mesma musa, mas separadas pelos séculos de um parto que, como a alcmena, íris atrasou.

Beowulf, de resto, continua vivo na cultura popular. Em Novembro próximo estreará um filme homónimo, de Robert Zemeckis. Não é este o espaço para explanarmos os nossos receios quanto à técnica escolhida para a película. Consola-nos (muito) que o argumento seja de Roger Avary (co-escritor de Pulp Fiction) e Neil Gaiman (Sandman) – especialmente este último, o grande reinventor pop de mitos, desperta-nos curiosidade e confiança suficientes. Entre os actores, destaque para Anthony Hopkins (Hrothgar), John Malkovitch (Unferth) e Angelina Jolie (a mãe de Grendel). Iremos seguindo aqui o desenvolvimento do projecto. Próxima etapa: trailer.

Ilustrações de Lynd Ward (1939): (1) Beowulf; (2) Geats Sail For Deanmark; (3) Wrestling With Grendel; (4) Beowulf Dives Into The Mere; (5) The Dragon; (6) Death Of Beowulf; (7) Mouring At Beowulf’s Bier.

Conveniente

A ideia de possuir a musa é só parcialmente verdadeira, porquanto, não raro, é a musa que nos possui, numa afirmação de feminismo mitológico. A obra de arte só parcialmente é obra do escritor: é muito mais da arte. A noção do texto como uma entidade autónoma, apenas em parte sob a tutela do autor, é, compreende-se, díficil de aceitar por um mundo que varreu de si a crença no sobrenatural (os velhos deuses não eram mais que manifestações dessa inexplicação das coisas). A arte, portanto, é, em primeira instância, um organismo, no sentido etimológico do termo: um corpo cujas partes “executam os diversos processos necessários à vida” (Houaiss); desenvolve-se per se, sem intervenção externa. O papel do falsamente chamado criador podia ser comparado ao dos pais que, não sendo eles que fazem a criança crescer, asseguram que esta dispõe dos meios (alimentos, saúde) para que o possa fazer nas melhores condições. O artista lúcido não teme expôr esta autonomia da arte: assim, Esher compôs a mão que se pinta a si mesma – é outra a mão que pinta, que não a mão do pintor. O símbolo universal desta verdade, a sua manifestação imaginada máxima, é o Livro do Destino – o livro último, que continuamente se escreve e se corrige a si mesmo. É que nem mesmo os deuses são superiores ao destino, para os julgarmos autores dele. Não raro, é precisamente quando o artista, enquanto sujeito e não mais enquanto veículo, se procura impor que a arte enfraquece e cai de cama.

Ontem ou anteontem (num dia qualquer que não foi hoje, e pouco importa qual seja, pois qual seja será sempre irrecuperável), eu queria ter escrito uma introdução breve e formal com o propósito que preside ao Em Busca da Beleza Perdida. Em vez disso, a circe-arte (porquanto o poder da arte é esse mesmo da metamorfose e daí a metáfora ser a sua expressão mais pura e o símbolo a metáfora maior) transformou cila, que era bela e amada, num monstro de seis cabeças, sem um hércules que a matasse. E por isso eu criei um eurípides para matar ésquilo e se desembaraçar da “sua gordura pomposa“. Assim achei por bem escrever, armado de uma gravata e um papillon, uma apresentação conveniente para o projecto, entendível ao mortal (de tanto se habitar entre os deuses no olimpo, o homem que ali subiu como belerofonte esquece-se que é mortal, de viver entre os imortais).:

Tenho no andar de baixo, entre livros de todas as áreas, o primeiro volume, na tradução de Pedro Tamen, de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Nunca li o cujo. O nome, porém, conservei-o na estante da memória como uma enciclopédia muito bonita para as visitas verem. Quando surgiu a ideia de criar este blogue, o nome retiniu nos calabouços das lembranças, batendo com uma pedra nos canos da parede da cela – e então eu libertei-o, porque o via já diferente e recuperado. Há coisas belas no passado. Do passado dizia Cícero: “De resto, que te importa que falem de ti os que nascerem depois, se já não falaram os que nasceram antes? Esses homens não foram menos numerosos, e foram certamente melhores”. Quando eu era pequeno, acreditava nos dinossauros porque tinham aparecido na televisão em 93 e queria ser um paleontólogo. Hoje, tornei-me um paleontólogo de deuses e heróis e exercito-me nesse meu emprego no curso de clássicas. Quando era criança, eu lia, para me embalar, dicionários de mitologia e o meu herói era o hércules e a xena a princesa guerreira. Os meus amigos imaginários tinham todos séculos de anos. E para mim pronunciar “hermes” era como falar da vizinha de baixo do apartamento. Quando eu fingi que cresci e fui para o secundário, eu queria escolher grego, para ler as autobiografias dos meus amigos, mas as senhoras da secretaria disseram que não, e resmungaram inscrevendo-me em latim, só porque não havia grego (como se isso fosse uma desculpa aceitável). Eventualmente, deixei-me levar por aquela língua áspera, que o tempo se encarregou de suavizar nos romanços. Como um Nietzsche, queria filosofia, mas tornei-me filólogo, pelo amor das palavras que Tolkien me ensinou. E quando entrei no curso, mais e mais descobria, a cada dia, tesouros novos que o tempo escondia e as pessoas esqueciam. E quando comecei a falar na língua das coisas enterradas, percebi que o mundo não percebia. Então cheguei a casa – e chorei muito: não tanto porque não era entendido, mas porque ninguém entendia mais os meus amigos; e ninguém sabia a beleza que perdia. Ai, eu amo em demasia as coisas belas e devia temperar a minha alma desse amor! Não me desconvenci ainda de Dostoievsky: “A beleza salvará o mundo”. Montei então uma resolução: cristo ressucitar os lázaros outros deuses. Quantos autores não mais lidos, quantas personagens que há anos que ninguém ama! Porque os deuses antigos não estão mortos, parte de nós (e da nossa civilização) é que morreu por não crer neles. Amemos todos os deuses como um ricardo reis e voltemos a encontrar homero como num conto de borges. Quando assentei nestas coisas, escrevi uma carta a todos os deuses, a convidá-los para virem aqui como a um café e inaugurar o clube dos deuses mortos. Chamei-os de todos os cantos e das épocas passadas e congregei à mesma mesa Loki e Atena, Epona e Ascânio, Artur e Tot, Izanami e Lúcifer, Kali e Quetzalcoatl, D. Sebastião e Zoroastro, vindos da Atlântida, de Mû e de Númenor: as terras mortas dos deuses matados. Gastámos os primeiros tempos a contarmo-nos mutuamente as nossas andanças e comentámos então a situação actual e o que se andava a fazer das nossas figuras, só para nos descubrirmos em livros e filmes e músicas. Foi então que Selene, já cansada de ser, disse precisar de dormir – e isso anunciava o fim da noite. Combinámos um encontro para daqui a mais cem anos, só para matar saudades: e no interlúdio, os deuses encarregaram-me de escrever.

Ilustração: Drawing Hands, de M.C. Escher (1948)

O Álbum da Tia Dulce

Mnemósine foi em tempos amada por Zeus – e o deus amante a protegia e salvaguardava. No dia porém em que Zaratustra desceu da montanha, Zeus morreu como as fadas. E doravante Mnemósine deambulou pedinte num mundo em que a hospitalidade não era mais um valor de glauco e diomedes – e não achou casa. O hedonismo moderno – porque é muito magro, quer na felicidade quer nas vistas – não comporta em si mais que o presente e limpou o passado para o armário de brinquedos onde escondeu toda a desarrumação do quarto na expectativa de que a mamã não o abra. Mas um dia – eram tantas as coisas escondidas! – as portas/o dique rompeu-se, e catapultaram tudo para o chão da sala. E a Memória era como um puzzle de seis mil peças (em que cada peça era um ano) por construir e ninguém sabia mais em que gaveta tinham guardado as instruções de montagem. Os homens perderam o hábito da lembrança no triste ritual del olvido. E as eras dos heróis morreram como leprosos, escondidas e um sino ao pescoço para todos correrem delas. Só mais tarde a humanidade compreendeu que tinha com isso perdido a sua linguagem, que não era feita de letras, mas de nomes, porquanto esses nomes – Heitor, Ulisses, etc. – tinham andado nas bocas antes sequer das letras. E todos se sentiram, subitamente, como uns brutos analfabetos. Carpinteiraram então seu barco e montaram uma expedição de argonautas para irem telémacos em busca dos antepassados. Os anos volveram, os homens não – e, pouco a pouco, todos se esqueceram. Um, porém, desembarcou a nado e de barbas longas correu nu arquimedes pela ilha a proclamar a luz e o engano. A mulher – que entretanto casara com homens mais bonitos – entrou para um convento e fez o marido frei luís, para fugirem ambos da verdade. Escandalizados com as coisas certas e antigas, os habitantes atacaram o odisseu, que levou consigo a maria por quem ninguém se interessava. E no ermo escuro onde se esconderam, maria aprendia fahrenheit 451 as mentiras míticas, que se movem noutra esfera dos seres, em que a beleza é um valor moral superior à verdade. E quando próspero morreu (foi dormir para outro lado), miranda converteu-se em circe e construiu um castelo onde guardou toda a magia de um mundo que não acreditava mais nela. E como um platão inscreveu na fachada do templo guardado por leões: “Não entre aqui quem não souber símbolos”. Mas os invasores armaram-se de moli – só eles não sabem que a moli é apenas um outro nome para a planta dos lotófagos. Ai que o conto foi todo mal contado! Pois hermes não se acha na rota para o palácio, está ele sim dentro do palácio: e os afortunados que nele entrarem, desobedecerão às suas ordens e de noite vestidos de velas como psique olharão o seu rosto – e entenderão enfim a hermenêutica do mundo, queimando-se, apenas porque tocaram a luz. E era tão belo o rosto de eros, era tão belo o rosto de todos os deuses! Alas!, até Balder, o mais belo de todos, pereceu. Circe contou-me o caminho para regressar aos infernos e com a sibila de cumas descer lá. Perante Perséfone justifiquei-me, e arranquei do coração dela o consentimento que ela tem. Liderando a procissão dos deuses, que me seguiam, subimos, sob a visão do psicopompo, as escadas que todos eles tinham descido: e eu era a promessa de eles se libertarem. Mas a pandora em mim não resistiu (e a beleza dos deuses era tanta!), que – erro meu, desgraça de todos! – orfeu me voltei e olhei no rosto as mil e uma eurídices que lentamente hades raptou de novo para o ventre da terra que nunca as parirá ao fim de nove meses. Para quando a cesariana desse útero, Hefesto, para que dela saia atena (que é o conhecimento) como de zeus? Enterrastes no solo as minas e os talentos, geração de hipócritas!, e delas não rendestes nada! Mnemósine pedinte precisa do vosso dinheiro. Ontem veio-me essa mulher nua a casa, lavada de chuva. Trouxe-a para dentro, cobria-a a uma manta e dei-lhe um chá quente no bordo da lareira. Olhei-lhe os cabelos longos e castanhos, ondulados com água – e as gotas que lhe corriam pelo corpo eram como as lágrimas de um argo que chorasse os cem olhos ao mesmo tempo, de uma tristeza bruta. Tinha o rosto batido e estava magra dos homens a terem esquecido. As amigas, contou-me, diziam-lhe para esquecer isso: mas ai como?, se ela era a Memória! Conhecia ainda cada um dos seus ex-amantes e não superava essa dor de perda. Nunca mais ninguém lhe escrevera uma carta – mas ela também não tinha uma casa e uma morada para o endereço delas. Perguntei-lhe se queria mais alguma coisa depois de ter bebido a chávena, mas ela abanou a cabeça silenciosa. Era já tarde para ser amanhã (agora era hoje), e fui-lhe buscar uma almofada, deixando-a no longo sofá, dormindo. Deitei-me também eu no quarto, só para acordar horas depois e fazer a barba. Permitia-a dormir até despertar e levei-lhe o pequeno-almoço às pernas. Embrulhada no seu manto, deliciou-se com a torrada e lambeu a manteiga dos dedos. Retardei-me a lavar a louça, como se dalguma forma isso evitasse as coisas acontecerem. Ela já estava de pé, quando enxaguei o prato, encostada ao umbral da porta. Dei-lhe para as mãos um pequeno saco, com provisões. Enquanto falava com ela, neutral (só para esconder uma saudade que deixava cair nalgumas palavras), ela permaneceu cabisbaixa. Abri a porta e ela saiu pela soleira. Então, Mnemósine voltou-se (a Memória é uma deusa que olha para trás, um jano incompleto) e despediu-se – do manto, abrindo os braços témis sem balança ou espada. A sua figura nua desenvolvia-se da pedra da entrada com a natureza de uma flor graciosa, rodopiando as curvas proeminentes e maduras de séculos, na geometria feminina de um manara. E de um golpe, fechou-se sobre mim e beijou-me, com os seus lábios de espuma e algodão. Amámo-nos o dia inteiro – passara muito desde que ela fora amada pela última vez e mil anos de ódio – que é o nome que ela dá ao esquecimento – só se diluem com um amor multiplicado por eles. Quando por fim a noite bateu à nossa porta (e o corvo poe me veio anunciar disso), entendi que para exercer a nova caridade a velha hóspede tinha de sair: uma casa com uma cama é de duas pessoas. «Sine (assim abreviava o seu nome para pecado), eu não te posso guardar em minha casa: sémele não pode ver zeus – e nessa impossibilidade se têm de amar». Ela levantou-se dentre os lençóis, como uma toga imperfeita cobrindo-lhe um peito e uma metade, abrindo a outra à tentação. Nos seus lábios entreabertos e escarlates, incapazes de mentir por serem tão belos, murmurou: «Deixa-me então contar-te uma história antes de partir. Há muitas coisas que aconteceram no esgoto do Tempo sobre as quais tu nem ousas sonhar». Aproximei-me do leito nu e sentei-me, com as pernas e os braços e os troncos e os corpos e os sentidos colados entre nós. E enquanto eu lhe mordia de beijos o pescoço limpo, ela sussurou-me ao ouvido uma estória inteira no rumor baixo com que se sua amor. Quando enfim o corvo se viu substituído pelo galo, e a aurora de dedos róseos chegou, levantei o rosto de espanto e entendi ser agora tarde para soltar de mim Mnemósine. Não, eu não ousava de novo libertá-la em pleno dia e contemplar a sua beleza e resistir-lhe: sucumbiria sempre. Apenas a cobertura da noite podia lutar contra a desvelamento do manto dela. Embalado na narrativa dela, perdera as contas do tempo (que tem uma matemática irregular). Entretanto, ela iniciara já um segundo conto e o meu coração hesitava entre aquilo a que era mais duro e forte resistir: se à sua titânica beleza, se à curiosidade de saber o desfecho do seu encantamento narrativo. Deixei-a ficar para outra noite, em que ela me prometeu concluir o mito. Ela enchia-os de pormenores vívidos, como só Memória ela mesma, a que tudo sabe, porque tudo viu, consegue. Ela pariu o nosso filho pelas pernas, mas nascia as personagens pela boca. E naquela segunda noite, de novo me deixou suspenso na terceira lenda com que me prendia. E, uma vez mais, eu permiti-lhe ficar para o dia seguinte – e assim construí, por noites árabes eternas, a minha Xerazade. Este é o relato das suas estórias.

Ilustração: Mnemosyne, de Ian Marke (2006)